3.7.09

A mais clara palavra

Manuel Fazenda Lourenço


A mais clara palavra lança a sua sombra
sobre os muros caiados de fresco.
O reflexo da cal incide em nossos olhos:
o mesmo aceno da luz, o mesmo brilho,
o mesmo pressentimento de júbilo.
Sobre o peito fatigado da terra
refazemos a casa.
Dói-nos, no olhar, a intensa floração
das árvores e podemos sentir,
no clamor das antigas oliveiras,
o vento que nos trouxe.


De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.6.09

Perto do Tejo


Mais perto do Tejo, há palavras
que tocam o sossego dos lábios
para dizer o sul da mágoa,
no voo convergente das gaivotas,
quando os barcos se abrem
ao argumento ondulado das marés.

De O Tejo e a margem sul na poesia portuguesa: antologia, 1993

21.6.09

Em seara alheia


Anjo

Acreditei num anjo que vivia
no parapeito granítico do quarto.
Não tinha altura, a única medida
eram as asas abertas
como as das borboletas sobre
o milho. Uma asa quebrou-se
no entanto continuava asa
às vezes mais forte do que a outra.
Fascinava-me o anjo da janela.
No alvoroço dos meus sete anos
contei-lhe um namoro de meninos
e amoras. O anjo caiu.

Maria Augusta Silva
In: Dança de Matisse. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2004

14.6.09

Memórias de Dulcineia XV


Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza
, disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.


De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

7.6.09

Não abdico da luz

A janela: fotografia de Gisela Ramos Rosa


Por detrás do olhar, só a escultura das palavras,
no hálito profano das manhãs, me perturba.
Não abdico da luz, mesmo quando, de olhos
no chão, invoco a humidade das sombras.
Um relógio de sol, na ponta dos dedos,
calcula o tempo de cada gesto,
com que abri mão dos sonhos da infância.

De Quando as estevas entraram no poema, 2005

31.5.09

Outras crianças

Claude Simon


Começa na rua o seu desamparado destino.
Têm, na certidão de idade,
os anos mais convenientes,
para quem as inicia na droga,
na oficina, na prostituição.
Sem histórias de encantar na hora do sono,
brincam ao acaso, indefesas,
orfãs que são de afectos verdadeiros.
Lutam pela sobrevivência
com a mesma habilidade com que manejam
o canivete, a bola, a rixa, o berlinde.
Cómodo se torna acreditar
que, as suas vozes infantis,
fazem delas crianças iguais às outras.

De Ortografia do olhar, 1996

25.5.09

Em seara alheia


Máscaras


ah! o imenso da possibilidade.


quantas rotas em tormentas?

quantas máscaras desejadas?


sucumbes à pressão dos momentos.


nada se transfigura nos espelhos,

e todos os dias és

mais do que a soma das tuas partes.


às vezes, os mares da realidade assim obrigam.


é nessas águas que também somos humanos.


Vicente Ferreira da Silva aqui
In: Interlúdios de certeza. Porto: Temas Originais, 2009

18.5.09

A múltipla sombra


Hoje soletro, no meu nome,
as sombras do passado.
Cito-me imitando um pássaro de luz
bebendo a própria sombra
para não morrer de cansaço.
À margem das palavras,
um fogo hereditário
ungiu-me a fronte
e pressagiou o rastilho
de um silêncio a muitas vozes:
a múltipla sombra no interior da boca.

De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.5.09

Memórias de Dulcineia XIV

Menez

Na penumbra me perco.
Surpreendida. Impaciente.
Como se uma reprimida dança
movesse o mais insólito enredo
nos meus passos.
Deito-me de bruços para cheirar,
na terra, o hálito do sonho que persigo
e o corpo cobre-se-me de ervas bravas.
Assim permaneço
até que uma lua de sangue me visite.


De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

4.5.09

Em seara alheia

QUE DIZER

Que dizer do tempo
hesitante de um poema
ou da forma magoada
de o escrever,
que dizer da voz
decidida do Poeta
ou do modo alterado
de o falar
e de o cantar,
que dizer de mim
e de ti
na noite de todos os poemas
dentro do tempo
dito de nós.

Maria Paula Raposo
aqui
In: Nevou este Verão. Lisboa: Apenas Livros, 2009

28.4.09

Desempregados

Dorothea Lange

Sabem de cor a raiva extenuada
com que se repete: trabalho, pão,
trabalho, pão, trabalho, pão
.
Nos seus olhos já não há, senão, um país
onde se nasce e morre, como quem cumpre
o exílio de uma pátria longínqua;
como quem conhece a orfandade do mundo;
como quem tropeça nas próprias cicatrizes.
Os seus pulsos sangrando de tanto desespero.


De Ortografia do olhar, 1996

20.4.09

LEMBRAR ABRIL






AS PALAVRAS DO MEU CANTO

Palavras que não morrem. Nunca morrem
se um homem as disser sempre de frente.
Palavras que não morrem. Nunca morrem
porque são a razão de quem as sente.

Palavras. Todas elas do meu povo.
Amigas. Companheiras. Namoradas.
E são o canto antigo. O canto novo
de quem não as quer ver amordaçadas.

Palavras que são vento. E tempestade.
Palavras que são sol. E são abrigo.
Verdade. Amor. Poema. Liberdade.
E a palavra maior: palavra Amigo.

Palavras que são arcos. E são setas.
Com elas se defende uma canção.
As palavras são as armas que os poetas
devem fazer passar de mão em mão.
[ … ]

Joaquim Pessoa
In: Amor combate. Lisboa: Moraes, 1977

13.4.09

Enredos de fim de tarde

Manuel Fazenda Lourenço


À revelia de pretéritas lembranças,
um bafo de terra molhada
devolve-me enredos de fins de tarde
que me sugerem os panos coloridos
com que, em criança, fazia as saias das bonecas.
O verso e o reverso de um concêntrico imaginário.
A atmosfera impregnada do meu fascínio de viver.
E pego na fala de Zaratustra para perguntar:

Que temos de comum com o botão de rosa
que verga sob o peso de uma gota de orvalho?
De que matéria somos feitos

que nos torna comovidos e inocentes
perante a promessa da ternura?
Sei o difícil jogo de viver.
Os meus desejos são como as areias

que o vento levanta sem levar para longe.
Nenhuma linguagem explica o devir das paixões.

De Outono: lugar frágil, 1993

6.4.09

Na proa dos barcos


Na proa dos barcos reconhecemos
os ventos tropicais.
Um cais torna-nos marinheiros
de um destino sem remorsos.
Ninguém põe em causa a perfeição
do voo das gaivotas nos corpos dos meninos
que rebolam, pela areia, a inocência do olhar.
Há uma rota, plural de outras rotas,
que pressente naufrágios a poente dos afectos.
Sal que vicia os lábios e magoa
como um punhal de sede.
Braço de água-doce
comprometido com um mar inacessível.

De Conjugar afectos, 1997

30.3.09

Em seara alheia


O passado dói como a dureza do mundo
João Rui de Sousa
Tenho saudades da tua voz,
desse rendilhado de sílabas
a desaguar lento no alvoroço
da tarde. Tenho saudades
da tua boca, onde eu, - náufrago
de antigas visões - todas
as noites ouvia a límpida melopeia
da ilha. Tenho saudades
das tuas mãos, sem convicções
fundeadas nas mais luminosas
águas. Tenho saudades
do ritual dos peixes, do rumor
inconsolado da brisa a soar
mansa no abandono dos búzios,
do emaranhado das algas
a envolver-nos a prontidão
dos passos. Tenho saudades
de mim nesses tempos,
quando não tinha saudades.

Victor Oliveira Mateus
aqui
In: A irresistível voz de Ionatos. Fafe: Labirinto, 2009